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Muitas mães ficam em dúvida se pode amamentar doente e quais são as doenças que impediriam a continuidade da amamentação. Vamos bater um papo sobre isso!

Como são muitas as doenças que não impedem que a mãe amamente e pouquíssimas são contra indicadas, farei uma lista das doenças mais comuns e comentarei sobre a continuidade ou não da amamentação caso a caso. A grande verdade é que na maioria dos casos, pode amamentar doente, principalmente quando se trata de doenças comuns como resfriados, gripes e intoxicações alimentares, então vamos desfazer alguns mitos a respeito.

  1. Gripes, resfriados comuns e H1N1
    A recomendação é que se mantenha a amamentação mesmo estando com um resfriado comum, desde uma gripe mais séria até a temida H1N1. Os cuidados para se amamentar estando gripada são os mesmos recomendados: lave bem as mãos, evite coçar olhos, nariz e boca, use máscara.
  2. Zika vírus, chikunghunya e dengue
    Muitas mães ficaram assustadas com essas doenças e se preocuparam com a contaminação do bebê, mas as recomendações é de se continuar com a amamentação normalmente. Não há nenhuma recomendação para interromper a amamentação, ainda que existam alguns relatos de terem encontrado zika vírus no leite materno, ele não contamina o bebê e além de tudo, seu corpo na presença de doenças produz anticorpos para combate-las e também envia para o leite materno, o que significa que o bebê consome os anticorpos de proteção também.
  3. Outras doenças infecciosas como infecção urinária, pneumonia e etc, a recomendação é manter a amamentação. E o tratamento pode ser feito normalmente, o médico tem uma série de medicamentos disponíveis que ele pode receitar para uma mãe que amamenta e que são compatíveis. Veja a lista aqui: Amamentação e uso de medicamentos.
  4. Intoxicação alimentar, diarréia e febre
    Manter a amamentação. Sim, não se preocupe que o alimento que te causou mal e a intoxicação, pois, ele não causará o mesmo no bebê e a intoxicação alimentar não “passa” para o leite materno, portanto, manter a amamentação é o ideal. Pode amamentar mesmo estando com febre, não importa o grau da febre e nem por quantos dias ela dure, a mãe pode continuar amamentando o bebê normalmente.
  5. Anemia
    Uma mãe com anemia precisa tratar a anemia, obviamente, porém nem o tratamento e nem mesmo a anemia contra-indicam a amamentação, ela pode continuar amamentando normalmente porque independente da sua condição, o leite materno continua tendo doses de ferro para o bebê.
  6. Diabete
    Segundo o Pediatra Carlos González, além de ser recomendada, uma mãe diabética amamentar é benéfico até mesmo para ela. Em um grupo de estudos com 809 diabéticas, as 404 que amamentaram mostraram uma melhor tolerância à glicose e menor incidência de diabetes insulinodependente (4,2 contra 9,4%), e o aumento do colesterol HDL sem aumentar o colesterol total. Ainda que a mãe seja insulinodependente a amamentação ainda é recomendada, é importante ajustar a dose de acordo com a glicemia, pois em muitos casos é necessário reduzir a dose. A composição do leite de mãe diabética com acompanhamento médico é normal. Os bebês devem ser observados e tratados junto com a mãe, o filho de uma mãe diabética também precisa de amamentação frequente e na primeira hora de nascido, além de ficar junto à mãe para evitar hipoglicemia e controlar a temperatura corporal.
  7. Câncer de mama CURADO
    Após o tratamento de radio e quimioterapia e depois da cirurgia de conservação a amamentação é possível no peito sadio e no peito tratado pela doença. Neste caso, a recomendação de amamentar é apenas quando o tratamento tiver terminado e não durante.
  8. Câncer de mama EM TRATAMENTO ou qualquer outro tipo de câncer
    Não é recomendado amamentar neste caso, a mãe precisa seguir todo o tratamento direitinho até estar curada.
  9. Fibrose Cística
    Aquelas que tem peso corporal adequado e uma situação clínica estável podem amamentar, a concentração de cloro e sódio no leite destas mães é normal, a gravidez e amamentação não afetam o quadro clínico da mãe, muito pelo contrário, à gravidez esta associada a um maior índice de sobrevivência.
  10. Hepatite A, B e C
    Estes 3 tipos de vírus podem ser transmitidos pela gestação, parto ou amamentação, no entanto, a recomendação é amamentar. Geralmente se administra imunoglobina padrão no lactente, apesar de isto ainda não ser um consenso. Filhos de mães com hepatite devem ser vacinados nas primeiras 12h de vida. Se a mãe portadora da hepatite C também seja portadora do HIV, aí a recomendação é de não amamentar, pois, segundo alguns estudos a presença do HIV negativo, facilita o contágio do bebê pela hepatite C.
  11. Aids
    Segundo o Pediatra Carlos González, a Aids é transmitida através do leite materno. Aproximadamente 15% dos bebês de mães com aids são contagiados durante a gravidez e parto e outros 15% durante a amamentação. Em países como o nosso com opções para se evitar o contágio, como o acesso a água potável e leites artificiais, não se recomenda a amamentação para evitar o risco do bebê ser contaminado. Em países em que os riscos de ser contaminado pela Aids é menor que a mortalidade infantil por desnutrição e doenças infecciosas, a recomendação é de se amamentar e estão sendo estudados formas para diminuir o risco de contágio. Ou seja: aqui no Brasil onde existem opções para evitar o contágio, mesmo nas regiões mais pobres, não deve-se amamentar se a mãe tiver Aids. Na África ou outros países muito subdesenvolvidos, em regiões de extrema pobreza, desnutrição, sem água potável entre outros problemas sérios, é recomendado amamentar porque a expectativa de vida de um bebê alimentado, mesmo com o risco de contaminar Aids é maior do que de um não amamentado. Infelizmente ainda vivemos este tipo de pobreza em muitas partes do mundo.
  12. Tuberculose
    Não é transmitida pelo leite materno, pode-se amamentar. A questão a se decidir não é se o bebê pode mamar ou não, mas se ele pode ficar junto à mãe, já que em alguns casos o contágio se dá por vias aéreas. O tratamento da tuberculose após algumas semanas já torna a doença não contagiosa, então tudo depende do momento da doença em que se está. Quando o diagnóstico foi feito dias depois e a mãe e bebê já estão em contato, não seria útil separá-los porque o bebê já teria sido exposto ao contágio e é melhor que mame no peito para receber anticorpos da mãe também. Segundo a OMS, as recomendações são: não separar o bebê da mãe, se a mãe estiver em tratamento há mais de 2 meses no momento do parto, comprovar a negatividade de duas expectorações e continuar o tratamento, se a mãe esta em tratamento a menos de 2 meses, continuar o tratamento e também tratar o bebê por 6 meses.
  13. Varicela Zoster
    Recomenda-se o aleitamento materno em todos os casos, mãe e bebê não devem ser separados mesmo que um ou ambos tenham vesículas ativas, eles devem ser isolados de outras mães com bebês.
  14. Hipertiroidismo e Hipotiroidismo
    Mantém-se a amamentação nos dois casos, as doses de medicamentos são ajustadas e no caso de hipertiroidismo, exames de controle da função tireoidiana do bebê também são solicitados, mas não foi publicado até hoje nenhum caso em que os exames do bebê deram alterados.
  15. Hipertensão ou cardiopatia
    Amamentar não representa sobrecarga para o sistema cardiovascular da mãe, portanto, a amamentação é recomendada.
  16. Epilepsia
    A maioria dos medicamentos usados para o tratamento da epilepsia são compatíveis com a amamentação, portanto a mãe pode amamentar normalmente.
  17. Depressão
    A depressão é diferente da melancolia pós-parto, falamos mais disse aqui: Melancolia pós-parto merece respeito. A depressão possui sintomas mais graves e que duram mais tempo, nem a depressão e nem a medicação usada justificam o desmame, existem medicamentos compatíveis e postei o link lá em cima. Apoiando a ajudando a mãe depressiva a amamentar, ela se sente com maior autoestima e satisfação. A mãe depressiva deve ter apoio, ajuda e companhia.
  18. Prolactinoma
    São definidos como tumores benignos da hipófise (pituitária), responsável pela síntese exacerbada de prolactina. As mulheres com estes tumores podem amamentar e a amamentação não provoca crescimento do tumor.
  19. Internação hospitalar
    A mãe pode ver seu filho para amamentar bem como ele pode ficar internado com ela. O medo de germes hospitalares só devem ser considerados se a mãe estiver com alguma doença infectocontagiosa, o bebê fica no quarto com a mãe bem como ficou na maternidade. A mãe pode amamentar assim que despertar de anestesia, já que isso significa que eliminou do organismo o medicamento, os medicamentos ministrados podem ser compatíveis com a amamentação. Quando a internação for programada, a mãe pode ordenhar leite materno e deixar um estoque para seu bebê em casa, bem como precisa ordenhar leite materno quando estiver no hospital e o bebê não puder mamar. Veja mais sobre isto aqui: Como ordenhar leite materno e Como descongelar o oferecer leite materno.
  20. Colite Ulcerosa
    A mãe com colite ulcerosa pode amamentar, a maior parte dos medicamentos são compatíveis com a amamentação e vários artigos de estudo dão conselhos práticos sobre o tratamento. O aleitamento materno também protege o bebê contra colite ulcerosa e a doença de Chron, o que sem dúvida deve ser levado em consideração quando se avalia o risco da medicação em relação aos benefícios do leite materno.
  21. Herpes Simplex tipos 1 e 2
    Pode amamentar, desde que não haja lesões nas mamas e bicos, caso, tenham lesões nestas regiões, é preciso esperar que as lesões cicatrizem para voltar com o aleitamento materno. Deve-se ainda ter cuidado com lesões em outras regiões que podem entrar em contato com o bebê e caso ele seja contaminado no período de internação e nascimento, ele deve ser isolado de outros bebês e não de sua mãe.
  22. Vírus linfotrópico (HTLV tipos I e II)
    Tendo em vista a possibilidade de transmissão e o desenvolvimento de doenças graves no bebê, o aleitamento materno não é aconselhado caso a mãe possua esta doença.
  23. Rubéola e caxumba
    Pode amamentar normalmente na presença destas doenças e se vacinar contra elas também.
  24. Citomegalovírus (CMV)
    Em relação ao CMV, recém-nascidos a termo devem ser amamentados sem preocupação, recém-nascidos pré-termo menores de 32 semanas e imunodeficientes por qualquer etilogia tem contraindicação ao uso de leite materno cru. A mãe pode ordenhar e levar para o banco de leite pasteurizar, no entanto, os riscos  de doença grave x benefícios do aleitamento materno devem ser avaliados junto ao médico.
  25. Malária
    Não há evidências de transmissão pelo leite materno, existem medicamentos e doses ajustadas compatíveis com a amamentação caso a mãe precise se tratar. A amamentação deve continuar.
  26. Toxoplasmose
    Não é contra indicado o aleitamento materno, a mãe pode continuar amamentando normalmente.
  27. Doença de Chagas
    Em casos de doença crônica o aleitamento materno deve ser estimulado. Apenas quando a doença esta em fase aguda ou mediante a presença de fissura com sangramento do mamilo a amamentação é contra indicada.
  28. Brucelose
    Na fase aguda da doença grave o aleitamento materno deve ser evitado, após o tratamento pode-se reestabelecer a amamentação.
  29. Sífilis
    Não se transmite pelo leite materno, apenas se houver lesões nas mamas. Nesta caso, com lesões de sífilis primária ou secundária nas aréolas não deve-se amamentar. Contudo, 24h após a administração de penicilina a mãe não oferece mais risco para seu filho.
  30. Hanseníase
    O aleitamento materno não esta contra indicado em mães adequadamente tratadas pela doença. A gravidez e o aleitamento materno não impedem os esquemas de tratamento, ele deve ser feito mesmo assim. Mães em fase de contágio devem limitar o contato com o bebê somente no momento de amamentar, e, mesmo assim, devem usar medidas para proteção do bebê usando máscaras, lavando bem as mãos e cobrindo as lesões.

Existem muitas outras doenças que poderiam entrar nesta lista, a idéia do artigo é te mostrar que um bom médico e atualizado avalia riscos e benefícios do aleitamento materno em relação a doenças da mãe, esta sempre atualizado sobre estudos e pesquisas científicas que melhoram a vida da mãe e do bebê. Fique atenta em relação a médicos que indicam desmame como primeira opção, desconfie sempre e procure outras opiniões. Se cerque de profissionais que apoiem e incentivem o aleitamento materno.

Referências bibliográficas deste artigo:
Amamentação: bases científicas / Marcus Renato de Carvalho, Luís Alberto Mussa Tavares. – 3 ed. – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014
Manual Prático de Aleitamento Materno / Carlos González – São Paulo: Editora Timo, 2014

 

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